segunda-feira, 31 de outubro de 2011

I Congresso do Livro discutiu alternativas “para que o livro não morra”

Em Março, no Reino Unido, foi divulgado um estudo que revelava que 10% dos britânicos, com idades entre os 15 e os 54 anos, tinha um iPad, o tablet da Apple, e 30% tinha um e-reader, um leitor de livros electrónicos como o Kindle, Sony ou Kobo. Estes números vão aumentar até ao final do ano, com a compra de presentes de Natal. A revolução digital veio para ficar. E embora a Europa esteja atrasada em relação aos Estados Unidos quando se trata de adoptar o digital no mundo editorial, isso não significa que essa mudança irá passar-nos ao lado.

"A revolução digital está em nosso redor, é um momento transformador, o equivalente ao momento da revolução de Gutenberg", afirmou Fergal Tobin, presidente da Federação Europeia de Editores e um dos convidados do I Congresso do Livro, organizado pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) e que reuniu nos últimos dias editores, livreiros e agentes literários na Praia da Vitória, ilha da Terceira, Açores.

Há a ideia de que a indústria editorial sobreviveu ao aparecimento de outros media durante o último século — rádio, televisão, Internet — e que irá sobreviver a este também. Desenganem-se. "Este momento é diferente. Vamos sobreviver à chegada do digital, mas ele já está a afectar o nosso ambiente tradicional da indústria editorial e com um efeito muito maior do que aconteceu com o aparecimento dos outros media", disse.
E atreveu-se a fazer um pouco de futurologia, embora na literatura e nas “belles lettres” a mudança para o digital pareça estar a ser menos penosa do que nas áreas mais comerciais. A opinião de Fergal Tobin é que o nicho literário continuará a existir no livro impresso, mas vai ser pequeno e talvez demasiado pequeno para ser comercialmente viável. A não-ficção terá uma mudança significativa do impresso para o digital, nomeadamente nos livros de saúde, jornalismo, auto-ajuda, etc. E os livros de arte ficarão em papel pois, acredita Fergal Tobin, não haverá ecrã de televisão em alta definição que substitua a leitura de um álbum. A conclusão é que a mudança vai ser "decisiva e transformadora" e as ameaças são reais para alguns sectores.
Alterar leis
Uma das conclusões saídas do congresso é a de que "a alteração da legislação é necessária para adequá-la à defesa da saúde do negócio dos direitos dos autores e dos editores", disse ontem o editor João Rodrigues, presidente da comissão organizadora do I Congresso do Livro, na sessão de encerramento.
Na plateia, Isaías Gomes Teixeira, administrador-delegado da Leya, alertou para a necessidade de mudanças na lei e da urgência de se tomarem decisões por causa da concorrência num mundo globalizado. Em Portugal há a lei do preço fixo e ao livro electrónico é aplicado o IVA à taxa máxima de 23%. No Brasil não. E, por isso, até ao final do ano o administrador da Leya terá de decidir se a livraria online do seu grupo — a Leya Mediabooks, que vende e-books de autores portugueses que também estão publicados no Brasil — continuará portuguesa ou passará a ser uma empresa brasileira, já que a Leya opera nos dois países.
A União Europeia, explicou o editor da Principia e da livraria Ferin, Henrique Mota, está a estudar a questão do IVA e, provavelmente, irá impor um princípio de territorialidade: um livro digital vendido no Brasil terá de ter o IVA aplicado no país de onde é enviado. Para aumentar a confusão, se um editor português vender actualmente um e-book integrado num suporte físico, a esse e-book já é aplicado o IVA à taxa reduzida.
Cabos, capas e baterias
Durante as discussões nos dois dias do congresso foi também consensual que é necessária a preservação da rede livreira independente. "Estas livrarias têm de sobreviver com as adequações necessárias à revolução digital", disse outro dos convidados, o presidente da Federação Europeia de Livreiros, John McNamee.

Isabel Coutinho
Público


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